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Procurador da Lava Jato diz, em mensagens do Telegram, que assessor do Randolfe informou que a boca grande Brasília diz que Gilmar vai soltar Marconi Perillo
Procurador da Lava Jato diz que Gilmar Mendes iria soltar Marconi Perillo, se esse fosse preso, revelam mensagens do Intercept
07/08/2019, às 16:18 · Por Eduardo Horacio
Novas mensagens reveladas pelo site Intercept Brasil revelam
que o procurador Diogo Castor, então membro da força-tarefa, dá a entender que
enviou para um integrante da equipe de Randolfe Rodrigues (senador) uma ‘sugestão’
sobre como deveria ser a minuta da ação, mais um indício de que a Arguição de
Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) no Supremo para impedir que
Gilmar soltasse presos em processos que ele não fosse o juiz da causa, na
prática, foi feita pelos procuradores da Lava Jato. Um detalhe importante:
Randolfe era um dos investigados na Lava Jato.
"Mandei a sugestão da ADPF pro assessor do Randolfe",
escreveu o procurador Diogo Castor às 17h42 do dia 10 de outubro de 2018. Logo
depois, às 17h49, completou, desta vez errando o nome do senador: “bastidores:
assessor do Randolfe Alves informou que a boca grande de bsb [Brasília] diz que
Gilmar vai soltar marconi perilo [Marconi Perillo (PSDB-GO), ex-governador de
Goiás] pelo mesmo caminho”.
Marconi renunciou ao governo de Goiás em abril de 2018 para
se candidatar ao Senado e, sem foro privilegiado, foi preso no dia 10 de
outubro, quase duas semanas após a deflagração da Operação Cash Delivery pelo
MPF e PF.
Em 11 de outubro, dia seguinte à mensagem do primeiro
parágrafo, Deltan antecipou aos procuradores às 13h58, horas antes que o
assunto fosse noticiado pela imprensa ou divulgado pelo senador, que a ADPF
havia sido protocolada pela Rede. “Hoje protocolada ADPF da rede contra GM
[Gilmar Mendes]”, relatou em um dos tópicos sobre uma reunião que havia
realizado.
Na ação, a Rede usa como argumento central para tentar
cassar a decisão de Gilmar o princípio do juiz natural, o mesmo que já havia
sido citado por Dallagnol nos diálogos com os colegas. O partido argumenta que
a ação é necessária “para impedir que o referido Ministro Gilmar Mendes
continue a conceder liminares para beneficiar presos de modo absolutamente
revel à liturgia do processo penal, convertendo-se numa espécie de
‘Supervisor-Geral’ das prisões cautelares levadas a termo em operações de
combate à corrupção no Brasil”. Em novembro, Cármen Lúcia negou a ADPF da Rede,
arquivando a ação e matando nos planos de Dallagnol e Randolfe.
Helio Telho
Segundo matéria do UOL, que recebeu
material do Intercept, mesmo na condição de investigado, o senador Randolfe
Rodrigues continuou sendo próximo dos procuradores, como fica evidente em um
diálogo travado em 5 de outubro de 2016 - antes do arquivamento do caso
Odebrecht Ambiental - no grupo Brigada Digital, que reúne procuradores de
vários Estados do país. Na ocasião, o procurador da República Helio Telho, do
MPF-GO, envia um projeto de lei apresentado por Randolfe aos colegas no chat.
Telho é integrante do Núcleo de Combate à Corrupção do MPF-GO e foi um dos
procuradores responsáveis pela prisão do ex-governador Marconi Perillo
(PSDB-GO) na Operação Cash Delivery, em setembro de 2018.
O procurador Marcos Antônio da Silva Costa pergunta a Telho
se o projeto em questão é "um daqueles" de sua autoria apresentados
pelo senador. Telho confirma que Randolfe costumava representar interesses dos
procuradores. O texto chega a ser elogiado pelo procurador Júlio de Castilhos. Os
procuradores da Lava Jato chegaram a comemorar a sua reeleição, no grupo Winter
is Coming, em um diálogo de 7 de outubro de 2018, dia do primeiro turno das eleições.
Enquanto o resultado das urnas era apurado, o procurador Helio Telho comemorava
os números parciais que mostravam o político à frente da disputa para o Senado
pelo Amapá. Telho se referiu a Randolfe como "aliado nosso" e,
algumas horas depois, a procuradora Janice Ascari se disse "muito
feliz" com o resultado final, que o reelegeu senador.
Outro lado
O portal UOL procurou Helio Telho para tratar do assunto. Helio Telho informou
que não encontrou os diálogos em sua conta do Telegram e que não se recorda de
tê-los mantido. Telho também informou que "redigir anteprojetos de lei ou
notas técnicas sobre projetos de lei e oferecê-los como sugestão a
parlamentares como contribuição para o aperfeiçoamento do processo legislativo
em temas relacionados com a atuação do MPF é uma atividade institucional
desenvolvida com frequência pelas Câmaras de Coordenação e Revisão, por grupos
temáticos, pela Secretaria de Relações Institucionais e Assessoria Parlamentar
e por membros do MPF”
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