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De acordo com a PGR, pelo menos 12 militares ligados às Forças Especiais participaram da conspiração, incluindo um ex-comandante do grupo. Goiânia abriga unidades estratégicas do Exército, como o Comando de Operações Especiais
'Kids pretos' de Goiânia pressionaram o Exército e planejaram golpe militar
21/02/2025, às 09:57 · Por Redação
Uma recente denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) revelou que um grupo de militares conhecidos como 'kids pretos', com base em Goiânia, pressionou o Alto Comando do Exército a aderir a uma tentativa de golpe de Estado. A investigação aponta que esses militares, especializados em operações de elite, estavam diretamente envolvidos em planos para sequestrar e assassinar autoridades do governo eleito.
De acordo com a PGR, pelo menos 12 militares ligados às Forças Especiais participaram da conspiração, incluindo um ex-comandante do grupo. Goiânia abriga unidades estratégicas do Exército, como o Comando de Operações Especiais (COpEsp) e o Comando de Operações Terrestres (COTER), que foram fundamentais na articulação do movimento golpista.
O histórico dessas unidades remonta a cerca de duas décadas, quando começaram a ser instaladas no antigo 42º Batalhão de Infantaria Motorizado (BIMtz). Na época, militares de elite foram transferidos do Rio de Janeiro para Goiânia como estratégia para afastá-los do crime organizado e do tráfico de drogas. A localização também favorecia a proximidade com a capital federal e o acesso a um aeroporto com autorização para voos internacionais.
O manual de campanha das Operações Especiais do Exército define os "kids pretos" como militares altamente capacitados para infiltração em ambientes hostis e operações clandestinas. Essa expertise foi utilizada nos planos de golpe, que incluíam o sequestro e a eliminação de autoridades como o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).
Além das ações violentas, os "kids pretos" buscaram persuadir o Alto Comando do Exército a aderir ao golpe. "Esse grupo da organização criminosa [‘kids pretos’] atuou para pressionar o comandante do Exército e o Alto Comando, formulando cartas e agitando colegas em prol de ações de força no cenário político, tudo para impedir que o candidato eleito Lula da Silva assomasse ao [entrasse no] Palácio do Planalto", destacou a CNN Brasil, citando trechos da denúncia.
A estratégia dos golpistas incluía a geração de caos para justificar a decretação de um estado de defesa ou de sítio. Segundo a delação do tenente-coronel Mauro Cid, dois oficiais do Comando de Operações Especiais propuseram a ele, após as eleições de 2022, um plano para desestabilizar o país e abrir caminho para um golpe.
A PGR destacou que as Forças Especiais não apenas executariam as operações militares, mas também coordenavam a propagação da narrativa golpista, incluindo a mobilização nos acampamentos de manifestantes e a disseminação de desinformação.
Lideranças do plano
As investigações apontam três figuras centrais entre os militares das Forças Especiais envolvidos na conspiração: o general Estevam Cals Theophilo Gaspar de Oliveira, à época comandante do Comando de Operações Terrestres (COTER), o general da reserva Mário Fernandes, ex-comandante de unidades em Goiânia, e o tenente-coronel Mauro Cid.
Mário Fernandes, preso desde novembro de 2024, teria sido responsável por coordenar estratégias para neutralizar opositores do golpe. Segundo a PF, ele elaborou o plano “Punhal Verde Amarelo”, que previa a eliminação de Lula e Alckmin antes da posse. Também esteve envolvido na operação clandestina "Copa 2022", que visava o assassinato do ministro Alexandre de Moraes. O general Theophilo, por sua vez, teria aceitado coordenar a participação das forças terrestres na tentativa de golpe, sem informar o então comandante do Exército, Marco Antônio Freire Gomes. Para a PGR, sua adesão foi um fator determinante para viabilizar a trama golpista.
Pressão
Para obter o apoio dos generais do Alto Comando, Mauro Cid organizou uma reunião clandestina em 28 de novembro de 2022, em Brasília. O encontro teve a participação de ex-integrantes das Forças Especiais e teve como objetivo alinhar estratégias para convencer os oficiais de alta patente a aderirem ao golpe. Mensagens interceptadas pela PF indicam que Cid e o coronel Bernardo Romão Correa Neto discutiam a redação de um documento a ser enviado ao Alto Comando do Exército com o intuito de pressionar os generais. No entanto, essa iniciativa não teve o resultado esperado.
As investigações revelaram que os golpistas estavam bem organizados e contavam com recursos sofisticados. Relatórios mostram que o general Mário Fernandes visitou acampamentos golpistas em Brasília e se reuniu com lideranças bolsonaristas para coordenar a mobilização contra o governo eleito. A PF também encontrou evidências de que os conspiradores adquiriram equipamentos de comunicação clandestinos e utilizaram celulares anônimos para evitar rastreamento.
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