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Getty ImagesParece que hoje vivo em outro planeta tamanha a distância das personas públicas que mobilizam atenção no meu mundinho se comparo ao de outros tantos brasileiros
Coluna do Pablo Kossa: As bolhas da internet nos fazem viver em planetas diferentes
19/03/2025, às 14:22 · Por Pablo Kossa
Leio as manchetes que dizem do “sucesso do frei Gilson...”, da “polêmica atitude do rapper Oruam...”, da influencer fitness “treinadora Carol Vaz dá dicas...” e fico abismado com o quão alheio estou ao mundo de hoje. Figuras gigantescas, que mobilizam milhões de brasileiros em suas redes, e que me passam completamente batidas. Culpa das famigeradas bolhas das redes sociais.
Há 20 anos era simplesmente impossível uma personalidade
midiática atingir o tamanho dos que citei no parágrafo anterior, ou outros tantos
que são ultra populares em seus segmentos, sem que fossem amplamente conhecidos
da quase totalidade dos brasileiros. A centralização da mídia era muito maior.
De um jeito ou outro, essas figuras entravam no nosso radar. Sabíamos algo
sobre elas. Formulávamos algum conceito sobre seu trabalho.
Parece que hoje vivo em outro planeta tamanha a distância
das personas públicas que mobilizam atenção no meu mundinho se comparo ao de
outros tantos brasileiros.
É claro que sempre existiu celebridade de nicho. Mas as
bolhas não eram tão isoladas, elas conversavam mais entre si.
Sim, os algoritmos das redes proporcionam esse isolamento,
mas reconheço que há também um fator pessoal nesse meu deslocamento. Não sou
alguém esforçado para ficar por dentro de temas que não me despertam interesse.
Eu não me ajudo muito.
No fim das contas, é um mix de preguiça e perda de prumo.
Preguiça por eu viver feliz na minha bolha sem precisar
fingir interesse por trends esquisitas ou patéticas dancinhas virais. Mas
também desorientação e perda do prumo, porque essa fragmentação da cultura me
deixou sem referências universais. Sei lá, tipo uns Trapalhões que todo mundo
comentava na escola na segunda-feira de manhã.
E a real é que arrumei uma bela desculpa para me enfiar cada
vez mais nos meus próprios gostos duvidosos que interessam a quase ninguém. ‘Welcome
to my nightmare’, diria Alice Cooper.
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