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Goiânia, 03/04/25
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Agência Brasil

Assim como o encantamento dela pelo mundo palaciano é fator constituinte dessa rejeição captada pelos institutos, não podemos tirar da conta também outra característica de nossa cultura: a misoginia

Coluna do Pablo Kossa: A reprovação de Janja envolve muitos fatores

21/03/2025, às 14:36 · Por Pablo Kossa

A primeira-dama Rosângela Lula da Silva é desaprovada pela maioria do eleitorado brasileiro. PoderData, Atlas/Intel, Genial/Quaest... São vários institutos de pesquisa que apontam a rejeição à figura da primeira-dama como superior à aprovação. Tal dado diz muito a respeito dela, por óbvio. Mas também diz muito do Brasil.

Janja passou por um momento de deslumbramento. Durante a campanha e na primeira metade do mandato, isso ficou bastante nítido. O contato direto com artistas (de quem ela era fã desde muito tempo atrás), a chance de trocar ideias com jornalistas que admira, frequentar círculos os quais nem em delírio juvenil imaginou que seria possível... tudo isso mexeu com a cabeça da socióloga. Inflou o ego. Agora, uma pergunta: quem não ficaria deslumbrado em tal circunstância? Quem teria maturidade para segurar essa onda?

Não venha pagar de evoluídão aqui, por favor. Ela estar deslumbrada só a coloca no rol da maioria. Contudo, não é por que a maioria faz que essa mesma maioria enxerga tal fato como positivo. Nem me parece que ela continua assim deslumbrada. Acho que ela já caiu na real. O ponto de inflexão talvez tenha sido a péssima repercussão ao ‘fuck you’ ao Elon Musk. Não sei. Mas sei que esse deslumbramento inicial pegou em como os brasileiros percebem Janja.

Assim como o encantamento dela pelo mundo palaciano é fator constituinte dessa rejeição captada pelos institutos, não podemos tirar da conta também outra característica de nossa cultura: a misoginia. Mulher com militância, opinião, voz ativa e que encara o debate público com franqueza incomoda as estruturas atávicas do patriarcado tupiniquim. O aumento de sua rejeição também passa por aí. Se Janja fosse à la Marcela Temer, a vida para ela seria mais fácil. Mas o patético “bela, recatada e do lar” não serve à companheira de Lula. E ela paga um preço caro por isso.

Vamos combinar que a rejeição à Janja não se explica só pelo ego inflado ao entrar no Planalto ou frequentar a casa de Paula Lavigne. O deslumbramento pegou mal, mas bora falar a verdade: no Brasil, mulher que se mete na política sempre incomoda. Se ela ficasse quietinha, só sorrindo e acenando, estava tudo certo. Mas não. Janja resolveu jogar o jogo e aí o bicho pegou.

No fim das contas, ela preferiu pagar o preço de ser ela mesma. O chilique contra Janja passa por ela e passa pelo que somos enquanto Brasil.


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