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Agência Brasil
Assim como o encantamento dela pelo mundo palaciano é fator constituinte dessa rejeição captada pelos institutos, não podemos tirar da conta também outra característica de nossa cultura: a misoginia
Coluna do Pablo Kossa: A reprovação de Janja envolve muitos fatores
21/03/2025, às 14:36 · Por Pablo Kossa
A primeira-dama Rosângela Lula da Silva é desaprovada pela maioria do eleitorado brasileiro. PoderData, Atlas/Intel, Genial/Quaest... São vários institutos de pesquisa que apontam a rejeição à figura da primeira-dama como superior à aprovação. Tal dado diz muito a respeito dela, por óbvio. Mas também diz muito do Brasil.
Janja passou por um momento de deslumbramento. Durante a
campanha e na primeira metade do mandato, isso ficou bastante nítido. O contato
direto com artistas (de quem ela era fã desde muito tempo atrás), a chance de
trocar ideias com jornalistas que admira, frequentar círculos os quais nem em
delírio juvenil imaginou que seria possível... tudo isso mexeu com a cabeça da
socióloga. Inflou o ego. Agora, uma pergunta: quem não ficaria deslumbrado em
tal circunstância? Quem teria maturidade para segurar essa onda?
Não venha pagar de evoluídão aqui, por favor. Ela estar
deslumbrada só a coloca no rol da maioria. Contudo, não é por que a maioria faz
que essa mesma maioria enxerga tal fato como positivo. Nem me parece que ela continua
assim deslumbrada. Acho que ela já caiu na real. O ponto de inflexão talvez
tenha sido a péssima repercussão ao ‘fuck you’ ao Elon Musk. Não sei. Mas sei
que esse deslumbramento inicial pegou em como os brasileiros percebem Janja.
Assim como o encantamento dela pelo mundo palaciano é fator
constituinte dessa rejeição captada pelos institutos, não podemos tirar da
conta também outra característica de nossa cultura: a misoginia. Mulher com
militância, opinião, voz ativa e que encara o debate público com franqueza
incomoda as estruturas atávicas do patriarcado tupiniquim. O aumento de sua
rejeição também passa por aí. Se Janja fosse à la Marcela Temer, a vida para
ela seria mais fácil. Mas o patético “bela, recatada e do lar” não serve à
companheira de Lula. E ela paga um preço caro por isso.
Vamos combinar que a rejeição à Janja não se explica só pelo
ego inflado ao entrar no Planalto ou frequentar a casa de Paula Lavigne. O
deslumbramento pegou mal, mas bora falar a verdade: no Brasil, mulher que se mete
na política sempre incomoda. Se ela ficasse quietinha, só sorrindo e acenando, estava
tudo certo. Mas não. Janja resolveu jogar o jogo e aí o bicho pegou.
No fim das contas, ela preferiu pagar o preço de ser ela
mesma. O chilique contra Janja passa por ela e passa pelo que somos enquanto
Brasil.
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