Matérias
Divulgação
Em maio, grupo liderado pelo senador goiano Vanderlan Cardoso (PP), com a presença do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP), visitou Minaçu para defender a volta da produção do amianto crisotila
Complô entre indústria do amianto e médicos teria sido montado para esconder mortes em Goiás
07/01/2020, às 10:43 · Por Pedro Lopes
Após intensa disputa entre a indústria do amianto e a Justiça, o Supremo Tribunal Federal decidiu pelo fim da extração do mineral em 2017, quando a Sama, da multinacional Eternit, intensificou o lobby para suspender a decisão e retomar as atividades.
Em maio, um grupo liderado pelo senador goiano Vanderlan Cardoso (PP), com a presença do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP), visitou a cidade de Minaçu para defender a volta da produção do amianto crisotila. A novidade revelada pela repórter Nayara Felizardo, do Intercept Brasil, é de que médicos que atuam na cidade de Minaçu, no Norte goiano, blindavam a empresa contra eventuais processos trabalhistas, às custas, inclusive, das vidas de vários ex-funcionários.
A empresa agia, segundo a reportagem, para desacreditar laudos de médicos independentes que diagnosticavam em seus trabalhadores câncer e asbestose, doença que endurece o pulmão e, como o nome sugere, é vinculada diretamente ao asbesto, como o amianto também é chamado. Na sequência, demitia os funcionários alegando cortes por questões econômicas.
“Quando ele olhou a tomografia, bateu na mesa e rabiscou o laudo de cima a baixo”, descreveu José Severino de Carvalho, referindo-se à atitude do médico da Sama, Eduardo Andrade Ribeiro, quando mostrou o exame feito em Goiânia. Era 2014 e José acabou sendo diagnosticado com asbestose quase por acaso, depois de sofrer um acidente de trânsito, por um profissional de Goiânia não vinculado à empresa. Em 2015, José seria demitido depois de 14 anos de serviços prestados à Sama.
A tomografia computadorizada mostra com detalhes o endurecimento do seu pulmão, uma das principais características da asbestose, também conhecida como “pulmão de pedra”. Mas, para o médico Ribeiro, a mancha não era um sinal da doença, e, sim, um problema causado pelo cigarro. Carvalho diz que nunca fumou.
Mostrei a tomografia para o pneumologista Hermano Castro, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. Especialista em medicina do trabalho, ele pesquisa as doenças provocadas pelo amianto desde 1989. Castro analisou o exame e não teve dúvidas: “O laudo é claro em afirmar que há lesões iniciais compatíveis com exposição ao asbesto”.
Documentos que o Intercept analisou, incluindo laudos de exames, certidões de óbito, dois estudos científicos financiados pela Sama e pela indústria do amianto, e o depoimento de ex-funcionários, mostram que não foi um caso isolado. (Veja aqui mais relatos). Ribeiro e outros médicos pagos pela Sama teriam ajudado, segundo o Intercept, a ocultar doenças causadas pelo amianto nos trabalhadores da empresa.
Amianto Sama Minaçu Intercept