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Reprodução/Twitter do Governo Federal
A área técnica do Ibama recomendou (e não foi ouvida) que a aplicação desse produto fosse feita fora das Áreas de Preservação Permanente (APP), como margens de rios
Ibama: produto químico que governo federal lançou em Goiás para conter fogo exige fim de consumo de água, alimentos e pesca por 40 dias
13/10/2020, às 00:02 · Por Eduardo Horacio
Um produto químico que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo
Salles, mandou lançar sobre Chapada dos Veadeiros para conter fogo exige
paralisação de consumo de água, pesca e alimentos por 40 dias. Por quê? Riscos
de contaminação. O alerta é do próprio Ibama. Os riscos de contaminação deste
produto utilizado em Goiás são tão controversos que o próprio Ibama faz alertas
graves sobre sua utilização.
O jornal O Estado de S.Paulo teve acesso a uma nota técnica feita
pela Coordenação de Avaliação Ambiental de Substâncias e Produtos Perigosos do
Ibama, em julho de 2018. Neste documento, os técnicos do Ibama analisaram o
produto que foi lançado na região, ainda sem ter a devida regulação ambiental
no Brasil. Esse produto químico, que é misturado à água e lançado por aviões
sobre a vegetação, tem a propriedade de aumentar a capacidade de retenção do
fogo. Os técnicos são taxativos ao recomendar “a suspensão do consumo de água,
pesca, caça e consumo de frutas e vegetais na região exposta ao produto pelo
prazo de 40 dias”.
Esse prazo é estipulado, de acordo com a nota, porque o produto lançado na floresta demora pelo menos 28 dias para que cerca de 80% a 90% de seu material se degrade. O composto utilizado, conhecido como retardante de fogo, foi o Fire Limit FL-02. Nesta semana, Salles foi alvo de críticas e protestos por moradores da região. O ministro postou imagens em suas redes sociais com o produto lançado na região e sobrevoou a Chapada, declarando neste domingo que o fogo tinha acabado na região.
A área técnica do Ibama recomendou que a aplicação desse
produto fosse feita fora das Áreas de Preservação Permanente (APP), como
margens de rios. A Chapada dos Veadeiros é uma região tomada por florestas
protegidas, como o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. O receio de
contaminação pelo produto químico levou o órgão do próprio Ministério do Meio
Ambiente a recomendar que todos os locais onde o retardante de chama fosse
aplicado tivessem de ser georreferenciados, registrando a data da aplicação,
quantidade de produto utilizada e tamanho da área aplicada, pelo prazo de seis
meses, pelo menos, de forma a identificar algum dano ambiental decorrente da
aplicação do retardante de chama.
Além disso, os técnicos afirmam que é preciso fazer análise
química para investigar os teores do retardante na água, solo, sedimento,
peixes e frutas, com coletas realizadas após 30 dias da aplicação do produto. A
análise indica que são medidas básicas para adoção da alternativa, “considerando
a inexistência de objeção legal que impeça a utilização do produto,
recomendamos o uso restrito do retardante de chama à base de nitrogênio”.
Na nota técnica, o Ibama aponta também que o tipo de produto
utilizado não faz parte dos grupos de retardantes de maior preocupação
ambiental e toxicológica, mas alerta que os reflexos dessa utilização ainda
deveriam ser mais bem estudados, daí a necessidade de tantas precauções.
Questionado sobre o assunto, o governo de Goiás, por meio de
Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad),
informou que “não há nenhuma regulamentação sobre o referido produto químico em
Goiás; que não foi consultado sobre sua utilização; e que não é autorizado o
uso do mesmo dentro da Área de Proteção Ambiental do Pouso Alto, de gestão sob
responsabilidade do governo goiano”.
Nos primeiros 11 dias de outubro, o número de focos de
incêndio no Cerrado, onde se encontra a Chapada dos Veadeiros, já supera toda a queimada
observada no bioma em outubro inteiro de 2019. Já foram registrados pelo
Programa Queimadas, do Inpe, 9.884 focos entre o dia 1 e 11 deste mês, ante
8.356 focos observados nos 31 dias de outubro do ano passado. O bioma começa a
engrossar a temporada de queimadas que assolam a Amazônia e o Pantanal.
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