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Agência Senado
Três temas desgataram bastante a imagem de Vanderlan na campanha, todos causados por declarações do candidato
Análise: Vanderlan tem derrota eleitoral em campanha com erros colossais
29/11/2020, às 20:11 · Por Eduardo Horacio
Quando a eleição municipal de 2020 for objeto de estudos, um
capítulo importante será dedicado a contar os erros da campanha o senador
Vanderlan Cardoso (PSD) na disputa pela prefeitura de Goiânia. O candidato do
PSD foi derrotado por Maguito Vilela (MDB) neste domingo, 29.
Com apoio do governo estadual e o recall de ter
disputado todas as eleições majoritárias na Capital desde 2010, exceção apenas
de 2012 quando estava impedido por lei, Vanderlan largou com uma frente
confortável nas pesquisas, além de ter a menor rejeição entre os principais
concorrentes. As boas notícias, porém, terminaram aí.
Agenda esvaziada
A campanha do senador cometeu diversos erros, do primeiro ao último dia de
campanha. Nos últimos cinco dias da eleição no segundo turno, Vanderlan teve
agenda esvaziada, com quase nenhuma campanha de rua e poucas reuniões restritas
a empresários. Na quinta-feira, 26, faltando três dias para o segundo turno, Vanderlan
nem tinha agenda durante o dia, apenas à noite.
O presidente do DEM metropolitano, Lívio Luciano, soltou até
um lapso de ‘sincericídio’ um dia antes, dia 25, faltando quatro dias para o
segundo turno, em entrevista à Rádio Sagres. “Agora o que nós podemos dizer é
que a presença do governador tem ajudado sem dúvida nenhuma, se não fosse a
presença do governador, imagino que situação nossa estaria irremediavelmente
perdida”, afirmou Lívio. E, de fato, as agendas mais vivas de Vanderlan foram
justamente as que contaram com a presença de Ronaldo Caiado (DEM).
“Fala muito”
Quase todos os problemas da campanha de Vanderlan foram causados pelo próprio
candidato – e pelo bom uso que o marketing de Maguito fez disso. O emblemático
áudio de WhatsApp no grupo de senadores em que defende o senador Chico
Rodrigues (DEM-RR) foi o primeiro entrave no primeiro turno da disputa. Áudio
que foi vazado pelo colega Jorge Kajuru (Cidadania), com quem Vanderlan se indispôs
antes mesmo do início da campanha eleitoral.
Gravar um áudio já é um erro. Gravar um áudio com conteúdo
tão polêmico é pior ainda. A demora em responder piorou ainda mais a situação. Primeiro,
Vanderlan tentou minimizar suas declarações sobre Chico Rodrigues – ele havia
dito que conhecida o colega e que não havia nada que o desabonasse. Passados
dez dias e diante de um desgaste cristalizado, o candidato do PSD recuou e
gravou um vídeo longo onde confessava ter “falado bobagem”. Além de não ter
resultado efetivo, o depoimento deu novo fôlego ao tema e legitimou o áudio. O
marketing da campanha de Maguito Vilela, claro, deitou e rolou no assunto.
Vanderlan ainda foi à Justiça duas vezes para barrar a divulgação do áudio, mas
não obteve sucesso.
Por disputar muitas eleições seguidas desde 2010, Vanderlan
é visto como eterno candidato. Por essa razão, um repórter do jornal O
Popular o questionou, em 2018, se ele cumpriria o mandato de senador, caso
fosse eleito. Categórico, ele disse que a entrevista estava sendo gravada e que
estava dando a palavra que ficaria os oito anos em Brasília. Ainda condenou
quem faz “escadinha” com mandato de senador. O vídeo acabou surgindo em meio à
campanha e novamente foi bem utilizado pelo marketing do MDB e do PT.
Ataques
Se no primeiro turno, a campanha de Vanderlan Cardoso gastou o tempo tentando
responder às investidas dos concorrentes, administrando uma hipotética vantagem,
no segundo turno, já em desvantagem, o senador foi para o ataque logo no dia
seguinte à eleição. Mais uma vez, errou no tema, na forma e angariou uma
rejeição recorde.
Após ter uma significativa melhora no quadro clínico, a
saúde de Maguito Vilela piorou justamente no dia da eleição no primeiro turno,
em 15 de novembro. Mesmo sem provas, duvidando da cronologia, Vanderlan
denunciou, em entrevista à Rádio Sagres 730, que Maguito estava lutando “contra
uma bactéria” e garantiu que a campanha do emedebista escondia seu real estado
de saúde. Segundo ele, havia em curso um “estelionato eleitoral”. Tudo isso com
um sorriso no rosto, que pegou muito mal no eleitor indeciso – a entrevista foi
transmitida em vídeo pelas redes sociais da emissora.
As declarações de Vanderlan causaram revolta no QG da
campanha de Maguito, além de severas críticas de jornalistas e formadores de
opinião, em geral. O motivo era simples: a campanha do MDB divulgava
diariamente, desde 2 de novembro (portanto, 13 dias antes do primeiro turno) os
boletins médicos enviados pelo Hospital Albert Einstein. Nada estava sendo
escondido. O que existiu foi uma mudança no quadro clínico do paciente.
Mesmo com rejeição subindo diariamente, a campanha de
Vanderlan decidiu não mudar o tom. Continuou a duvidar dos boletins e atacar
até médicos que cuidam de Maguito em São Paulo. A tática era tentar criar uma
desconfiança no eleitor sobre as condições de Maguito assumir o Paço. Houve algum resultado prático? Houve. Mas à custa de muito aumento da rejeição. Vanderlan errou na dose. Se tivesse ficado calado sobre a saúde de Maguito, talvez vencesse a eleição. O eleitor sempre soube que o estado de saúde de Maguito era grave, Vanderlan errou em tentar tirar proveito disso explicitamente.
Em que pese ter conseguido de fato criar alguma instabilidade no eleitor, a rejeição ao tom adotado por Vanderlan transbordou. Na última semana a pesquisa RealTime Big Data apontou a rejeição de Vanderlan alcançando 50%. Dois meses antes, era de apenas 8%. A rejeição tornou-se um problema político de difícil resolução futura. É como se o senador tivesse rompido um acordo tácito entre políticos, que geralmente encerra-se com a apuração dos votos.
Marketing
Na estratégia de marketing, comandada pelo jovem Maurício Coelho, a campanha de Vanderlan Cardoso (PSD) também
cometeu erros. O principal deles foi apresentá-lo como continuidade da gestão
do prefeito Iris Rezende (MDB). O eleitor não achou crível essa tese, abraçando
Maguito para defender o legado da atual gestão. A clivagem das pesquisas
comprovou isso.
Vanderlan iniciou a campanha em primeiro lugar, mas distante
de seus melhores números (revelados em levantamentos internos sobre a sucessão
em Goiânia). O senador era visto como oposição a Iris. Com a gestão mal
avaliada em 2017 e no início de 2018, Vanderlan era lembrado como forte
alternativa.
À medida em que Iris recuperou o prestígio de sua atual
gestão na Capital, atravessando os momentos difíceis nos primeiros 18 meses de
administração e superando 73% de aprovação (número da última pesquisa Ibope), a
força de Vanderlan foi esvaindo-se em proporção inversa.
O candidato do PSD só seria forte novamente se o marketing
tivesse conseguindo desgastar Iris. Ao tentar vendê-lo como irista, a campanha
transformou Vanderlan em um candidato ‘pirata’ e ajudou a promover a comparação
com o ‘original’ Maguito, com muita vantagem para seu concorrente. Em resumo:
quando falava de Iris, Vanderlan só puxava votos para Maguito.
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