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Foto: Eduardo Horacio
Maria Rita Kehl: a semente da eleição de Bolsonaro começou a ser plantada cinco anos antes, nas passeatas heterogêneas de 2013 quando, pela primeira vez, se via gente nas ruas pedindo a volta da ditadura
Maria Rita Kehl em Goiânia: “Bolsonaro é a figura da psicopatia, mas não posso dizer que ele é psicopata”
27/04/2019, às 02:02 · Por Eduardo Horacio
A psicanalista Maria Rita Kehl esteve em Goiânia na
sexta-feira, 26, à noite no Auditório 1C da Área II da PUC-GO, a primeira vez
desde que Jair Bolsonaro (PSL) se elegeu presidente. O tema de sua exposição,
bastante atual, foi “a atualidade das depressões e a política brasileira”.
Para analisar o que pode ter facilitado a eleição de alguém
como Bolsonaro para a Presidência da República, ela disse que uma boa pista é uma
frase famosa de Thomas Mann: “Toda época que tem medo de si mesma tende à
restauração”. E, neste caso, por que a repetição não se deu com Lula e sim com
Bolsonaro? Ela deu pistas para a resposta. Lula estava preso (“a prisão do Lula
foi fundamental na eleição do Bolsonaro, a Lavajato também serviu pra isso, ela
foi feita pra acabar com o PT e com o Lula”) e mesmo assim o Brasil quase ficou
dividido meio a meio, com o Fernando Haddad (PT) tendo 45% dos votos no segundo
turno.
Ou seja, em uma boa pista trazida por Maria Rita, é possível
inferir que uma parte do Brasil queria um retorno à era Lula (no caso, via
Haddad) e outra parte, majoritária na eleição, quis a volta a um passado imaginário de uma ditadura militar, “já que o Brasil é único país da América do Sul que teve uma
ditadura e saiu dela perdoando seus tiranos. O Brasil recalcou seu passado em
vez de discuti-lo exaustivamente e agora pagamos o preço disso”. A memória
propicia a sensação de permanência do que já passou – e a falta de memória do
Brasil é que permite uma “saudade” até mesmo de um período tenebroso como a ditadura
militar. “Uma pessoa sem memória é uma pessoa sem identidade”, afirmou.
Maria Rita lembra também que a semente da eleição de Jair
Bolsonaro começou a ser plantada cinco anos antes, nas passeatas heterogêneas
de junho de 2013 quando pela primeira vez, desde o fim da ditadura militar (1964-1985),
se via gente nas ruas com cartazes pedindo “intervenção militar”.
Indagada se Bolsonaro representava a figura do “grande pai”,
tão comum em tantos momentos da história, Maria Rita disse que “grande pai”
quem representou foi o ex-presidente Lula. “O que se busca na política é um pai
imaginário, nada simbólico, as referências são imaginárias também”, ressaltando
que a política que busca figuras paternas é a política de uma sociedade que tem
pouca capacidade de simbolizar. “O grande pai é imaginário e ele nos infantiliza
(...), uma sociedade que elege um grande pai está numa fantasia infantil”,
explicou.
Sobre Bolsonaro, segundo ela, não há ali a figura de “grande
pai” e sim a “figura do poder violento”. “Bolsonaro é a figura da psicopatia”,
afirmou. Mas logo fez ressalvas: “Não estou dizendo que ele é psicopata porque
nunca esteve no meu consultório e, se for psicopata, não se tem como saber
porque o psicopata não reconhece sua ferida e por isso nunca vai se analisar”. Maria
Rita se diz otimista e afirma “querer crer” que Bolsonaro é apenas “perverso e que
quer nos fazer mal”, mas vê saída. “Nossa esperança é que Bolsonaro é muito
burro”, disse, para delírio da plateia. O eleitor que busca o Bolsonaro se
sente de alguma forma representada por alguém como ele. “A eleição do Bolsonaro
é a procura por alguém sem escrúpulos, mas também é o cara que se sente como
uma anta e agora tem uma anta no poder”, arrematou.
Benjaminiana
Nos primeiros 30 minutos de exposição para uma plateia diversificada, ela falou
da relação do tempo na psicanálise e na vida, com conceitos freudianos, lacanianos,
marxistas e benjaminianos. Citando o sociólogo Antonio Candido (1918-2017), Maria
Rita falou que uma “uma das coisas mais sinistras da história da civilização
ocidental é o famoso dito, atribuído a Benjamim Franklin, ‘tempo é dinheiro’
porque isso não é uma frase, é uma brutalidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o
tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando”. Foi uma precisa reflexão
da sociedade capitalista que exige cada vez mais o atropelamento do tempo para
a produção de mais-valia.
Sobre Jacques Lacan, Maria Rita brincou com o seu público dizendo
que, se fosse fazer um “exame médico”, só iriam aparecer “duas cruzes e meia” e
não “cinco” como lacaniana. “Eu diria que sou metade freudiana e metade benjaminiana”,
fazendo referência ao pai da psicanálise Sigmund Freud e a Walter Benjamin, um
dos mais estudados filósofos da Escola de Frankfurt (a propósito, Maria Rita
tem inclusive ótimos textos sobre a melancolia em Benjamin e em Freud e umdeles pode ser lido clicando aqui).
Perguntada pela plateia, Maria Rita disse que “as redes
sociais são uma doença social onde a psicopatia impera” e que incentivam a “busca
de sucesso sem fim”, o que gera muita frustração, mas que ainda merece mais
estudos para falar com mais propriedade. E não deixou de lembrar as fake news,
principalmente as espalhadas via robôs, fundamentais na eleição de Bolsonaro em
2018.
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