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Câmara dos Deputados/Liderança
Eduardo Cunha sobre Mabel no impeachment: "o ex-deputado Sandro Mabel estava tentando negociar apoios, mas às vezes atropelava. Nada contra a participação dele, mas temia uma atuação descoordenada"
Leia todas as citações: Mabel é mencionado 27 vezes no livro de Eduardo Cunha: de adversário a amigo
27/04/2021, às 16:55 · Por Eduardo Horacio
Veja, na matéria a seguir, na íntegra, todos os trechos em
que Sandro Mabel, peça-chave no impeachment de Dilma, é citado no livro "Tchau,
Querida: O Diário do Impeachment” (Matrix, 808 páginas), do ex-presidente da
Câmara dos Deputados Eduardo Cunha. No início, adversário na disputa pela
liderança do PMDB em 2013 e, depois, aliado de Cunha (mas sem deixar de ter
atritos).
Eduardo Cunha x Mabel em 2013
Em um dos trechos, Eduardo Cunha revela a disputa com Sandro Mabel pela
liderança do então PMDB na Câmara dos Deputados, no início de 2013:
“A campanha pela liderança correu em paralelo à de Henrique
Alves à presidência, já que uma escolha foi marcada para a véspera da outra.
Isso dificultava a articulação de Henrique Alves e Michel Temer contra mim.
Para neutralizar Temer, obtive o apoio de Geddel Vieira Lima
e de Moreira Franco, que assumiram a linha de frente da campanha e, com isso,
passaram a limitar a ação do vice-presidente. Para isso, assumi um compromisso
com Moreira Franco – uma vez líder, apoiaria a pretensão dele de ocupar um
ministério, já que estava em uma secretaria sem nenhuma função, a de Assuntos
Estratégicos.
Como a eleição teria três candidatos, poderia ir para o segundo
turno. Combinamos as regras entre nós: venceria o que tivesse a maioria
absoluta da bancada em primeiro ou segundo turno. Passamos o mês de janeiro de
2013 em campanha. Moreira Franco e Geddel trabalharam para neutralizar a
pressão que Dilma fazia em Temer, a fim de evitar a minha eleição.
A presidente também foi pressionar Sérgio Cabral para que
não me apoiasse. Ela fazia de tudo para evitar minha eleição, inclusive
colocando o governo para sinalizar que com meu concorrente, Sandro Mabel, os
deputados seriam mais facilmente atendidos.
Além de Dilma, Renan Calheiros também entrou contra mim. Seu
filho, o então deputado e atual governador de Alagoas, Renan Filho, acabou
apoiando Sandro Mabel. José Sarney também, com a bancada do Maranhão.
Consegui ajuda de outros partidos. Os deputados João Carlos
Bacelar, do PR da Bahia, e Lázaro Botelho, do PP de Tocantins, se licenciaram
do mandato por quatro meses – sem vencimentos –, para que assumissem suplentes
do PMDB que tinham sido coligados desses partidos na eleição de 2010.
Assumiram, então, Marcelo Guimarães, ligado a Geddel, e
Leomar Quintanilha, ligado ao deputado Júnior Coimbra, meu apoiador. Conquistei
dois votos a mais e elevamos a bancada dos aptos a votar de 79 para 81
deputados.
Enfrentei todos, inclusive aqueles que eram os meus
principais parceiros políticos naquele momento, Michel Temer e Henrique Alves.
Venci a eleição. Tive 40 votos no primeiro turno, contra 26 de Sandro Mabel e
13 de Osmar Terra, além de uma abstenção, a de Henrique Alves. Nem deveria ter
tido segundo turno, já que tive mais votos do que a soma dos outros dois
candidatos.
Como Sandro Mabel exigiu o segundo turno, concordei. Não
queria atritar mais a bancada. Aí foram 46 votos para mim contra 32 de Sandro
Mabel, com duas abstenções, mesmo com Osmar Terra declarando apoio a Sandro
Mabel.
A vitória foi contundente e deixou sequelas na eleição de
Henrique Alves no dia seguinte. Ele se elegeu presidente da Câmara, mas com
menos votos do que o esperado – a candidatura alternativa do PMDB, da então
deputada Rose de Freitas, acabou amealhando os votos de uma parte da bancada do
partido, insatisfeita com a omissão de Henrique Alves na minha campanha.
Inconformado com a derrota, Sandro Mabel entrou com um
mandado de segurança no STF, visando a anular a eleição. Seu gesto,
desesperado, irritou a todos, de Michel Temer aos deputados que o apoiaram. A
iniciativa não teve sucesso e ele amargaria um longo período isolado na
bancada. Com o tempo, recuperei a relação com ele – que acabou virando um
apoiador da minha liderança.
Assim, em 4 de fevereiro de 2013, Henrique Alves foi eleito
presidente da Câmara e Renan Calheiros conseguiu voltar à presidência do
Senado, com o mandato de ambos até 31 de janeiro de 2015.”
Mabel entre Dilma e Eduardo Cunha
Neste trecho, pós-eleição presidencial de 2014, em que Dilma Rousseff foi
reeleita, Eduardo Cunha já tratava de sua candidatura à presidente da Câmara
dos Deputados. O principal interlocutor de Eduardo Cunha com Dilma era Sandro
Mabel:
“Fechei apoio com um bloco do PTN, comandado pela deputada
Renata Abreu, em uma viagem a São Paulo às escondidas, indo à sua casa
diretamente para isso e convencendo-a a mudar de posição.
O Solidariedade, que estava em um bloco de oposição para o
mandato todo, saiu e preferiu ficar diretamente no nosso bloco. A pressão do
governo obrigou o PSD a compor o bloco do PT, mas boa parte da bancada votava
em mim.
Gilberto Kassab estava no projeto de registrar o novo PL.
Com a ajuda do governo, iria filiar deputados de outros partidos, inclusive do
PMDB, nessa nova legenda. Dilma também havia retirado o Ministério das Cidades
do PP e dado a Kassab, que estava com uma forte máquina política. Ele tinha de
tentar seguir o governo – mas não controlava a bancada toda, que depositou boa
parte dos votos em mim.
A pressão estava também em retirar o PRB do meu bloco.
Pressionaram o ministro dos Esportes, nomeado pelo partido, com ameaças que me
foram relatadas pelo presidente da legenda, Marcos Pereira, que se manteve
firme e honrou até o fim o compromisso assumido comigo.
A reta final da campanha, feita toda em Brasília, trazia a
briga pelo apoio do PP e do PR, que ainda não tinham anunciado sua posição
oficialmente, sendo que com o PP já estava acertado o apoio. Somente me pediram
que deixasse a decisão para a véspera da eleição, para não estar sujeito à
pressão do governo.
Quanto ao PR, a maioria dos votos era certa, pois estava
tudo combinado fazia bastante tempo – o líder do partido, Bernardo Santana, que
não tinha disputado a eleição, era o secretário de Segurança de Minas Gerais,
sofria pressão do então governador Fernando Pimentel e chegou a colocar o seu
cargo à disposição.
Também contava com o apoio do principal comandante do
partido, Valdemar Costa Neto, que já havia assumido compromisso comigo. Mas o
governo pressionava o PR a participar do bloco do PT – e Valdemar tomou a
posição de ceder na formação do bloco, mas liberar os votos para mim. Isso foi
o que ocorreu. No fim, tive do PR ao menos 24dos 34 votos.
Na sexta, dia 30 de janeiro, Michel Temer me telefonou. Disse
que o governo queria fazer o acordo de novo. Insistiu que eu aceitasse o
rodízio, ficando com o primeiro biênio, e o PT com o segundo.
O deputado Sandro Mabel foi chamado ao palácio e voltou com
a mesma proposta, com uma lista por escrito dos termos do acordo, que
incluiria, de novo, a reunião com todos os líderes da base para referendarem o
trato de forma pública.
Repeti a mesma resposta de antes, quando houve essa
proposta: que aceitaria o acordo de retirada de Chinaglia e o PT ficaria com a
primeira vice-presidência. Comprometia-me a garantir que o PMDB não lançaria
candidato à minha sucessão e que, depois, eles que se viabilizassem. Mas não
iria me desmoralizar firmando uma aliança com o PT em cima da hora, sendo isso
o contrário do discurso de toda a campanha.
Embora soubesse que esse acordo, naquele momento, garantiria
a eleição e que, na véspera da eleição, não daria tempo para nenhuma outra
candidatura se viabilizar no vácuo da incoerência do meu discurso com uma união
com o PT, não quis aceitar para não ter, junto com a vitória eleitoral, uma
derrota política. Porque eu teria batido no PT e feito um acordo para a minha
conveniência pessoal. Isso iria tirar minha credibilidade na presidência. Eu me
tornaria um presidente fraco, como haviam sido os anteriores com relação ao
governo.”
Mabel pressiona Eduardo Cunha pelo impeachment
Em 2015, primeiro ano do segundo mandato de Dilma Rousseff (PT), Eduardo Cunha
revela em sua autobiografia que Sandro Mabel, Rodrigo Maia e Paulinho da Força
eram os que mais pressionavam pelo impeachment da presidente:
“Na quinta almocei com Temer, com a presença de Moreira
Franco. Conversamos abertamente sobre o processo de impeachment. Temer começava
a defender, para mim, o impeachment.
Ele seguia arredio, nesse momento, a avançar de forma mais
contundente. Tinha receio dos boatos de que o governo, por meio de Rodrigo
Janot, estivesse tentando colocar seu nome nas delações premiadas – para
inviabilizá-lo como substituto de Dilma. Temer sabia como ninguém do que eles
eram capazes.E estava ouvindo dizer que a delação de Fernando Baiano poderia
atingi-lo – embora Temer nem o conhecesse pessoalmente.
Discutimos a estratégia de elaborar uma questão de ordem
para definir o rito do processo de impeachment, antecipando a briga judicial
que certamente o PT poderia fazer. Temer concordou com essa iniciativa, a mesma
que eu estava combinando com os líderes da oposição.
Foi Temer quem primeiro me falou sobre o estratagema de
rejeitar o pedido de abertura de impeachment e, depois, diante de recurso, submeter
ao plenário. Foi o que ele fez quando era presidente da Câmara e precisou lidar
com o pedido de impeachment feito pelo PT contra o então presidente Fernando
Henrique Cardoso. Pesquisei tudo o que se referia a isso para sustentar uma
posição idêntica à usada por ele.
Paralelamente, os deputados Paulinho da Força e Rodrigo
Maia, além do ex-deputado Sandro Mabel, que tinham bastante trânsito com os
deputados, com Temer e comigo, estavam me pressionando para que aceitasse o
pedido de abertura do processo de impeachment, diferentemente do proposto pela
oposição na frente deles.
Eles achavam que eu não deveria ter dúvidas e aceitar
imediatamente o pedido, tentando articular diretamente com Temer, para que ele
também me pressionasse a essa decisão.
Paulinho chegou a me procurar em nome de Temer, me
perguntando o que eu desejava para aceitar o pedido de abertura do processo.
Ele ofereceu inclusive o ministério que eu quisesse no futuro governo, após a
minha saída da presidência da Câmara – além de indicar imediatamente um nome
para o ministério que eu escolhesse.
Eu respondi a Paulinho que seria óbvio que, se Temer assumisse o governo, eu teria influência. Talvez até pudesse, no futuro, vir a ser ministro – mas os termos da situação não iriam depender de nenhum acordo prévio, pois já estava favorável ao impeachment. Além, é claro, de eu já atuar para isso.”
Mabel em diálogo com Temer pelo impeachment de
Dilma
Novamente, Sandro Mabel tem papel importante no diálogo com o então
vice-presidente Michel Temer e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha:
“Na quinta, declarei à imprensa que pode ter havido
pedaladas, mas, para o impeachment, era necessário configurar a
responsabilidade de Dilma nos atos. Sem isso, não se poderia, em tese, ter a
aceitação do impeachment.
Janot vazou mais documentos, desta vez para o site da
revista Veja. Mais um escândalo, mantendo a rotina. Além de vazar, escolhendo o
órgão de imprensa, Janot costumava fazer isso sempre às quintas-feiras, para
que repercutisse no fim de semana. Teori Zavascki determinou o bloqueio dos
ativos das contas do trust, já bloqueados na Suíça – mais um desgaste na mídia.
Os grupos pró-impeachment acamparam em frente ao Congresso
com a minha autorização. Algo que havia sido negado por Renan, o que obrigou os
manifestantes a ficarem do lado da Câmara, no gramado do Congresso.
O deputado Paulinho da Força e o ex-deputado Sandro Mabel
intensificaram os diálogos com Temer, intermediando apoios com vários
personagens para aderirem ao impeachment. Eles tentaram costurar um acordo para
que eu aceitasse a abertura do processo. Voltaram com a história de me propor
cargos no futuro governo Michel Temer. Paulinho disse para eu escolher o
ministério que desejaria ocupar, quando saísse da presidência da Câmara. Eu
descartava. Repetia que, se fosse o caso, trataria direto com Temer.
Naquele momento, o vice-presidente já assumia uma posição pró-articulação do impeachment, recebendo grupos de deputados para conversas e articulando com a oposição para cooptar votos. Paulinho e Sandro, além de Rodrigo Maia, eram os que mais me pressionavam para aceitar o pedido de impeachment, em uma marcação cerrada sobre mim. A pressão deles era insuportável. Eu respondia que era natural que interferisse em um governo de Temer, podendo eventualmente compor o governo após o fim do meu mandato na Câmara. Não precisava de acordo prévio para isso. Não seria a possibilidade de um cargo que me faria aceitar o impeachment.”
Mabel e a cassação de Eduardo Cunha
Neste trecho, Eduardo Cunha revela o papel de Sandro Mabel, que tentou ajudá-lo
a não ser cassado no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados:
“O governo e Jaques Wagner começaram a usar a influência que
tinham sobre o presidente do Conselho de Ética da Câmara, José Carlos Araújo.
Ele era deputado do estado de Wagner e dependente da máquina governamental na
sua eleição. Estavam inclusive nomeando cargos federais, atendendo a Araújo. O
objetivo era usar essa influência para me pressionar a não aceitar o pedido de
impeachment.
Na noite dessa quarta-feira fui ao aniversário do deputado
Guilherme Mussi, onde encontrei vários parlamentares, inclusive Fausto Pinato,
membro do Conselho de Ética, que poderia ser o escolhido para relatar meu
processo de cassação.
Pinato me abordou dizendo que eu poderia ficar tranquilo. Se
ele fosse o relator resolveria rapidamente o assunto, para que eu não me
desgastasse. Estava preocupado pelo fato de ele ser deputado de primeiro
mandato, sem muita experiência – e alguém que eu pouco conhecia, embora tivesse
me apoiado na eleição da presidência da Câmara.
Com a conversa, me senti mais tranquilo, já que a disposição
dele era arquivar tudo de imediato.
O presidente do Conselho de Ética havia chamado o
ex-deputado Sandro Mabel para negociar a relatoria comigo, me pedindo R$ 3 milhões
para o financiamento da sua campanha de reeleição mais o apoio para a vaga na
mesa do partido dele, na eleição seguinte, em 2017. Respondi a Sandro que
dinheiro não daria nem tinha para dar, mandando enrolá-lo, falando que, na
época da eleição, pediria a empresários que o ajudassem. Mas ele poderia contar
com meu apoio para a vaga da mesa do partido dele na eleição seguinte. Com
isso, se dispôs a escolher o relator que eu quisesse entre os possíveis pelo
regimento. Ele faria um sorteio, sairiam três nomes e, dos três, ele escolheria
quem quisesse.
Combinamos os três que sairiam do sorteio. Saiu um do PT, o
deputado Zé Geraldo, um do PR, o deputado Vinícius Gurgel, e Fausto Pinato, do
PRB. Ao fim, ele diria que não escolheria do PT, por ser meu desafeto; não
escolheria Gurgel, por ser muito ligado a mim; restando Fausto Pinato, o que
acabou ocorrendo.
José Carlos Araújo era experiente no conselho. Sandro Mabel,
que tinha se livrado no passado de um processo de cassação, conhecia o caminho
das pedras. Araújo manipulava o sorteio, fraudava, seja com bolas de pesos
diferentes ou papéis de texturas diferentes. Sempre saía quem ele queria e
negociava.
Era rotina ter negócios no Conselho de Ética. Mas como se
tratava do presidente da Câmara, eles achavam que o céu era o limite para suas
demandas, tentando se aproveitar da situação.
É bom registrar que todos os que no final votaram a meu
favor no conselho o fizeram sem ter tido qualquer vantagem. Todos os votos
foram ou por orientação partidária, ou por convicção, ou ainda por terem
relações políticas comigo. O problema nunca esteve nos que votaram em mim ao
fim, mas sim nos que votaram contrariamente. Como acabei não acertando nada com
ninguém, fui derrotado.
Dessa forma combinada, José Carlos Araújo cumpriu a escolha
do relator. Mas, como viu a forte repercussão do meu assunto, pretendia ficar
na mídia e não aceitava terminar em arquivamento sumário, querendo levar o
processo adiante.
Além disso, como não tinha sido votada no Senado a PEC do
financiamento privado das eleições, ele sabia que não haveria empresários que
pudessem financiar a sua campanha a meu pedido. Logo, sua opção era obter
vantagens do governo e notoriedade na mídia. Ele iria atuar contra mim todo o
tempo.
O relator escolhido, Fausto Pinato, por sua vez, foi
pressionado pelo líder do seu partido, o PRB, deputado Celso Russomanno. Ele
não queria que fosse arquivado de pronto o meu processo, para que não
atrapalhasse sua eterna pretensão de ser prefeito de São Paulo. Ele achava que
o voto favorável a mim, de um integrante do seu partido, poderia prejudicá-lo.
Mesmo assim, Fausto Pinato estava disposto a arquivar,
segundo o que me trazia o deputado André Moura, que se tornou o meu
interlocutor com ele. Só que, oportunista, pediu, por intermédio de Moura, R$ 5
milhões. Isso me revoltou. E me levou, além de negar o pagamento – até porque
não tinha esse dinheiro –, a enfrentá-lo de público”.
(...)
“Na terça, dia 3, foi instaurado o processo contra mim no
Conselho de Ética – decorrente da representação do PSOL e da Rede, feita pelos
meus desafetos. Cumprindo o combinado inicial com Sandro Mabel, o presidente do
conselho, José Carlos Araújo “sorteou” três nomes para a relatoria – exatamente
os previamente acertados: José Geraldo, do PT, Vinícius Gurgel, do PR, e Fausto
Pinato, do PRB.
No dia seguinte, o pai do líder Leonardo Picciani, Jorge
Picciani, foi para Brasília. O pretexto era comparecer a um almoço na casa do
deputado Fábio Ramalho, pelo aniversário de seu filho.
Só que sua movimentação foi além disso. Ele esteve com Dilma
e procurou outros líderes partidários, inclusive o ex-deputado Waldemar Costa
Neto, o maior líder do PR. Costurava apoios para que o filho assumisse meu
lugar na presidência da Câmara.”
Mabel e Padilha no entorno de Temer
Neste trecho, Eduardo Cunha revela que Sandro Mabel e Eliseu Padilha eram
os dois homens de confiança de Michel Temer, então vice-presidente:
“O grupo pró-impeachment já estava instalado e atuando de forma conjunta. Era
então coordenado por André Moura e composto por Paulinho da Força, Arthur Maia,
Rodrigo Maia, Mendonça Filho, Lúcio Vieira Lima, Darcísio Perondi, Carlos
Marun, Carlos Sampaio, Bruno Araújo, Maurício Quintella, Marcelo Squassoni e
Fernando Coelho. A partir daquele momento mantivemos Rogério Rosso e Jovair
Arantes afastados, para não contaminar a atuação deles na comissão especial.
No entorno de Temer, além de Eliseu Padilha, Sandro Mabel se
juntava ao grupo. Em seguida se juntaria o senador Romero Jucá, que iria
assumir a presidência do partido. Temer, inclusive, não iria participar da
reunião do diretório nacional do dia 29, encarregando Jucá de conduzir a
decisão de rompimento com o governo.
A Polícia Federal vazou uma planilha encontrada na casa de
um ex-executivo da Odebrecht, na mesma operação que havia prendido o
marqueteiro João Santana. Nela estavam citados 316 políticos de todos os
partidos, supostamente beneficiados. Não ficou claro se eram de doações
oficiais de campanha ou de caixa 2.
O vazamento foi muito estranho, no momento em que Dilma
sofria com acusações de caixa 2 de campanha. Isso depois que o novo ministro da
Justiça havia ameaçado trocar toda a equipe de investigação caso houvesse
vazamento. Eugênio Aragão tinha declarado que “tomaria providências se a
Polícia Federal não tivesse tido um comportamento profissional”. Não se teve
conhecimento de nenhuma providência ou punição.
Essa divulgação incomodou até Sergio Moro. Ele imediatamente
determinou o sigilo da operação. Ele sabia que esse vazamento era bom para o
PT. Oito dos citados eram membros da Comissão Especial do Impeachment. Também
havia o fato de o ministro Teori Zavascki ter dado um verdadeiro pito em Moro
pela divulgação das gravações de Lula. Moro não ia querer um novo entrevero por
essa divulgação, que aparentemente não era sua culpa.”
Mabel negociando apoios ao impeachment
Neste trecho, Eduardo Cunha revela que Sandro Mabel negociava apoios ao
impeachment de Dilma, mas Cunha estava preocupado com isso:
“Temer me disse que estava conversando com Gilberto Kassab,
presidente do partido e ministro das Cidades de Dilma. Ele achava que ali já
estava bem encaminhado, para que ele permanecesse no ministério em troca de
apoiar o impeachment. Disse também que o ex-deputado Sandro Mabel estava
tentando negociar apoios, mas às vezes atropelava. Nada contra a participação dele,
mas temia uma atuação descoordenada, que levasse a um aumento do custo da
operação. Temer combinou que me informaria acerca de tudo que fosse tratado com
Sandro.
Lembrei a ele a máxima de Ciro Nogueira, de que não se tira
presidente, mas se coloca presidente. Dessa forma, era uma eleição indireta.
Dilma iria oferecer tudo que pudesse para não perder. Só teríamos chances se
fôssemos opção a eles. Em vez de participar de um governo em decomposição,
todos iriam preferir participar de um governo de salvação.
Àquela altura, Temer já estava conversando individualmente
com vários deputados e diretamente assumindo compromissos. Isso iria aumentar
nospróximos dias.
Terminamos a conversa com os ponteiros acertados. Não
precisaríamos mais debater o impeachment. Estava dado o passo definitivo de
Temer para que o impeachment não tivesse mais retorno. Ele já havia feito sua
escolha.
Descemos juntos no elevador. Dentro dele, em um monitor de
TV, notícias da investigação da minha mulher ter sido enviada para o chefe da Operação
Lava Jato. Eu o alerto sobre a notícia. Ele franze a testa sem falar nada, em
razão da presença dos seguranças.”
Mabel aliado de Kassab
Neste trecho, Eduardo Cunha revela que Sandro Mabel era aliado de Gilberto
Kassab e queria mantê-lo no Ministério das Cidades:
“Moreira Franco defendia dar o Ministério das Cidades para
Aécio indicar. Ocorre que Sandro Mabel estava aliado a Kassab, que queria manter
o ministério. Era uma luta forte de bastidores. Temer também, a essa altura,
iria se decidir por Alexandre de Moraes para a Justiça, para sinalizar a
nomeação de um secretário de Alckmin.”
(...)
“Os trabalhos da comissão especial do Senado avançavam bem.
A previsão era de que, na sexta, dia 6, se votasse na comissão e, no dia 11,
ocorresse a votação final no plenário do Senado – que definiria o afastamento
de Dilma da Presidência.
Após a sessão da Câmara, fui para o Palácio do Jaburu. Na
entrada, me deparei com Gilberto Kassab e um grupo de deputados do PSD saindo.
Kassab me explicou, rapidamente, que Temer havia oferecido o Ministério das
Comunicações e que ele preferia continuar nas Cidades. Ele me pedia ajuda.
Respondi que iria falar com Temer e, depois, o chamaria para conversar.
No Jaburu, estavam Eliseu Padilha, Moreira Franco, Geddel
Vieira Lima, Henrique Alves e Sandro Mabel. Na conversa, Mabel atravessou o
samba e forçou o descumprimento de alguns compromissos. Discuti fortemente, saí
do grupo e resolvi me dirigir para a saída do palácio, quase indicando um
rompimento.
Temer foi atrás de mim, impediu minha saída e me levou para
o seu escritório, onde conversamos a sós. Ele contornou a confusão, mas havia
ali claramente uma tentativa daquele grupo de passar por cima dos acordos para
a votação do impeachment, o que eu não aceitaria. A alegação era que o Senado
estava exigindo “as calças dele”, pois senão, não haveria impeachment.
Por óbvio eu sabia que isso era verdadeiro – mas existiam
formas de atender sem quebrar os acordos. Com minha insurgência, consegui
restabelecer esses acordos que estavam para ser quebrados, embora ainda
faltasse administrar pequenos conflitos. Isso seria mais fácil se o objetivo
fosse o de atender. Recompor situações sempre é melhor do que descumprir
acordos.
Nós esbarramos em dois pontos, sobre o Solidariedade e o PSC
– que, embora estivessem atendidos, não o estavam da forma combinada. Eu iria
ajudar a convencê-los a aceitar. Relatei a Temer o que Kassab me dissera na
saída. Temer me pediu que ajudasse com ele, para contornar o problema.
Ali havia uma divisão clara. Geddel e Moreira Franco estavam
decididos a dar o Ministério das Cidades para o PSDB. Sandro Mabel dizia que
resolveria com o PSDB e que se deveria manter Kassab nas Cidades. Estimulava-o
a lutar pelo cargo.”
(...)
“Kassab me explicou os motivos de a bancada ter apoiado o impeachment. E agora
perderia a posição para quem estava de fora. Ele achava injusto. Além disso, ao
mesmo tempo que Kassab falava comigo, Mabel telefonava estimulando o confronto
pelo cargo. Mabel chegou a ir à residência oficial para falar com Kassab em
separado.
Eduardo Cunha Sandro Mabel Michel Temer Gilberto Kassab Jovair Arantes Impeachment Dilma Rousseff MDB PMDB Câmara dos Deputados