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O Patriota tem, no comando de seus diretórios estaduais, políticos que nem sempre foram conservadores "puro-sangue", o que poderia levar a um processo de expurgo com a entrada do presidente.
Patriota está em conflito existencial e Jorcelino Braga pode perder o partido em Goiás
07/06/2021, às 15:43 · Por Redação
O Patriota, legenda que deve receber em breve o presidente Jair Bolsonaro, está em conflito entre seu presidente nacional, Adilson Barroso, e o vice, Ovasco Resende, que o acusa de manobrar internamente para permitir a filiação do senador Flávio Bolsonaro (RJ).
A ala ligada a Resende diz que Barroso ignorou o estatuto partidário para aparelhar a convenção nacional com aliados.
E vê com desconfiança o alinhamento total do Patriota ao bolsonarismo, em Goiás, o deputado federal Major Vitor Hugo articula para tomá-lo de Jorcelino Braga.
O partido surgiu da junção do antigo PEN (Partido Ecológico Nacional), comandado por Barroso, com o PRP (Partido Republicano Progressista), de Resende.
Na prática, as duas partes nem sempre tiveram relação harmoniosa, e as diferentes visões afloraram agora.
Secretário-geral do partido e aliado de Ovasco Resende, Jorcelino Braga diz que o Patriota é um partido de centro, não conservador.
"Eu entendo por centro tudo que tem equilíbrio, que tem bom senso. O presidente [Barroso] pode definir o partido como conservador, mas eu digo que sou de centro", diz.
Braga é também presidente do diretório estadual de Goiás e foi um dos patrocinadores de uma representação enviada à Justiça Eleitoral contestando as alterações na estrutura do partido feitas de forma unilateral por Barroso.
Na quarta-feira, 2, o ministro Edson Fachin rejeitou a ação dizendo que ela deve ser encaminhada à Justiça comum, o que deve ocorrer nos próximos dias.
Braga afirma não ser contra a filiação do presidente em princípio, mas diz que é preciso discutir exatamente o espaço que os aliados de Bolsonaro teriam internamente.
"O que queremos saber é qual o projeto. O que querem? Querem o controle do partido? O Adilson prometeu o controle para eles? Somos uma executiva eleita até 2022", diz.
Em entrevista à Folha na quinta, 3, Barroso afirmou que o debate sobre a ocupação de espaços pelos bolsonaristas não entrou na pauta ainda, mas sinalizou que mudanças deverão ocorrer.
"Se tiver alguém em algum lugar que não tem habilidade para perseverar, para fazer o Patriota crescer, essa pessoa tem de deixar a vaga. E continua quem tem essa habilidade", declarou o presidente do partido.
O Patriota tem, no comando de seus diretórios estaduais, políticos que nem sempre foram conservadores "puro-sangue", o que poderia levar a um processo de expurgo com a entrada do presidente.
O comandante do Maranhão, por exemplo, é o deputado Marreca Filho, que é aliado do governador Flávio Dino, do PC do B. Em Santa Catarina, quem chefia a legenda é Vanderson Soares, que foi filiado ao PSB.
Hoje, ele se diz conservador e afirma que defende a entrada de Bolsonaro, mas desde que de forma negociada. "A gente quer uma construção, não quer nada de cima para baixo. Seria muito deselegante que o grupo do presidente entrasse no partido e assumisse todos os diretórios", afirma Soares.
Em Pernambuco, o atual presidente regional é o deputado federal Pastor Eurico, que também é egresso do PSB. "Se o presidente vier, é bem-vindo. Se não vier, o partido seguirá em frente. O presidente é uma pessoa, o partido é uma conjunção de pessoas", afirma ele.
Lideranças do partido preveem que será inevitável um expurgo de quadros mais centristas, que não se adaptarão à guinada bolsonarista da sigla.
Na última terça-feira, 1º, o vereador Gabriel Azevedo, de Belo Horizonte, foi expulso por criticar a entrada do presidente na legenda.
O mesmo já havia acontecido em São Paulo com o vereador Fernando Holiday, quando o flerte de Bolsonaro com o Patriota ainda estava no início.
Os próximos a saírem devem ser o também vereador paulistano Rubinho Nunes e o deputado estadual Arthur do Val, ambos ligados ao MBL (Movimento Brasil Livre). "É um partido que tem muitas pessoas que estão mais ao centro, outras passaram por partidos de esquerda. E um presidente [Barroso] que se diz conservador, mas que para mim é apenas bolsonarista mesmo", diz Holiday, atualmente no Novo.
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