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Divulgação/Vitamedic
O financiamento da campanha pela farmacêutica pode configurar conflito de interesses, de acordo com o Código de Ética Médica
Farmacêutica goiana do ‘Kit Covid’ bancou anúncios ‘pró-tratamento precoce’ e atuou no gabinete paralelo, revela CPI
17/07/2021, às 18:00 · Por Redação
Dados sigilosos da CPI da Covid no Senado (publicados
neste sábado, 17, pela Folha de S.Paulo) revelam que a farmacêutica
Vitamedic bancou a publicação de anúncios da Associação Médicos pelo Brasil em
defesa do chamado tratamento precoce contra a Covid-19, tese sem respaldo na
comunidade científica.
Os anúncios publicitários foram veiculados nos principais
jornais do país e tinham como autor apenas o grupo Médicos pela Vida. A peça
defendia o tratamento precoce com o uso de cloroquina, ivermectina, zinco e
vitamina D. Os remédios, à época, já eram descartados pelas comunidades
científica e médica para o tratamento da doença.
A Vitamedic é uma das principais produtoras de ivermectina
do país. A empresa é goiana e pertence desde 2015 ao Grupo José Alves que, até
então, aparecia apenas como apoiador da Médicos pela Vida. Em dados enviados à
CPI da Covid, a empresa informou que aumentou a venda de caixas do medicamento
em 1.230%, passando de 5,7 milhões em 2019 para 75,8 milhões em 2020.
O financiamento da campanha pela farmacêutica pode
configurar conflito de interesses, de acordo com o Código de Ética Médica. A
associação Médicos pela Vida mantém um site favorável ao tratamento precoce e
alguns de seus integrantes compõem o chamado gabinete paralelo, grupo de
aconselhamento informal do presidente Jair Bolsonaro, um dos principais
defensores no Brasil do tratamento precoce.
O oftalmologista Antônio Jordão, que assinou o termo de
responsabilidade para que os anúncios pudessem ser veiculados, aparecei ao lado
de Bolsonaro em uma reunião em setembro. Os anúncios de fevereiro foram
publicados na Folha e nos jornais O Globo, Estado de Minas e Zero Hora, entre
outros. No dia seguinte, a Folha publicou reportagem relatando a publicação
desses anúncios nos quais defendem o uso de medicação sem eficácia comprovada
contra a Covid-19.
A Vitamedic informou à CPI o total de vendas de caixas de
Ivermectina de janeiro de 2020 a maio de 2021 e o preço médio por caixa.
Fazendo a conta, estima-se que a empresa tenha arrecadado R$ 734 milhões só com
esse medicamento do "kit Covid" nesse período.
Os dados do patrocínio da campanha chegaram à CPI após
requerimento do senador Humberto Costa (PT-PE) aos veículos de comunicação, no
dia 30 de junho. No ofício, o parlamentar pediu que fossem informados quem
solicitou a publicação do informe “Manifesto pela Vida” e o valor dessas campanhas.
Os documentos mostram que a Vitamedic foi a contratante e
responsável pelo pagamento. Em dois jornais, Zero Hora e O Globo, os anúncios
custaram R$ 217.295,05. Na Folha, o anúncio saiu por R$ 78.080,62. Os demais veículos
ainda não enviaram os dados à comissão.
A comissão no Senado já descobriu, por exemplo, a existência
de um gabinete paralelo de aconselhamento do presidente fora da estrutura do
Ministério da Saúde. Os senadores agora querem descobrir a relação das
farmacêuticas com o governo e com os membros desse gabinete paralelo.
A associação Médicos pela Vida disse que não iria se manifestar
sobre o assunto. A Vitamedic foi procurada pela Folha desde segunda-feira, 12, para
comentar os dados, mas até a publicação deste texto não havia se manifestado.
Elda Bussinguer, coordenadora do mestrado e doutorado em
direito da Faculdade de Direito de Vitória e pós-doutora em saúde coletiva,
avalia que todas as vezes que a indústria farmacêutica age no sentido de
apoiar, financeiramente ou de outras formas, iniciativas de grupos de médicos
ou de grupos de consumidores de saúde, o conflito de interesses pode estar
estabelecido. Ela afirmou que a situação caberia em três artigos do Código de
Ética Médico.
Um deles diz que é “vedado ao médico exercer a profissão com
interação ou dependência de farmácia, indústria farmacêutica, óptica ou
qualquer outra organização destinada a manipulação, promoção ou comercialização
de produtos de prescrição médica, qualquer que seja sua natureza”.
“Quando isso ocorre, a isenção médica fica comprometida e o
paciente, a sociedade como um todo, fica vulnerável aos interesses da indústria”,
afirma Elda.
Dias antes de os anúncios serem publicados nos jornais, a
Vitamedic havia divulgado nota rebatendo a farmacêutica Merck (MSD no Brasil),
produtora inicial do medicamento. A Merck afirmou que não há evidências
pré-clínicas nem clínicas de eficácia da ivermectina no combate à Covid.
A nota foi assinada pelo diretor superintendente da
Vitamedic, Jailton Batista, segundo quem a comprovada segurança oferecida pela
ivermectina e mais dezenas de outros estudos desenvolvidos ao redor do mundo
deram mais argumento à comunidade científica para incluir o medicamento no
protocolo de combate à doença.
“O crescimento do mercado da ivermectina, um produto de
baixo custo e terapeuticamente de baixo risco, naturalmente, incomoda e pode
ser o motivador de campanhas contra na mídia, especialmente provocadas por
empresas que têm interesse em lançar produtos patenteados de alto custo para a
mesma doença”, disse no período.
O grupo desenvolveu e administra a plataforma iMed dentro do
site da Médicos Pela Vida. Exclusiva para médicos, é ali que são prescritos alguns
protocolos de tratamentos e são assinados manifestos.
Ela também serve como um canal para que os médicos possam
encontrar outros colegas em diferentes estados, tornando a comunidade
referência no tratamento precoce contra a Covid.
Em um vídeo publicado em março, Jordão, um dos coordenadores
da associação, chama o reitor da Unialfa e o chefe de TI do Grupo José Alves,
Carlos Trindade, para explicar o funcionamento dessa plataforma. O conteúdo foi
revelado pelo jornalista Victor Hugo Viegas Silva, do site Medium.
O oftalmologista afirma que “os médicos vão fazer a
interação com a plataforma atual graças à ajuda de vocês”, referindo-se a
Trindade.
Jordão aparece ao lado de Bolsonaro em uma reunião realizada
em setembro de 2020. Foi nesse evento que o virologista Paolo Zanotto deu a
sugestão de criar uma espécie de “gabinete das sombras” para tratar da resposta
oficial à pandemia.
A médica Nise Yamaguchi também foi uma das participantes do
evento. Em grupos de médicos defensores do tratamento precoce, circula um vídeo
gravado por ela sugerindo que as pessoas procurem um médico a favor do
tratamento precoce através do site da associação Médicos Pela Vida.
“Logo no início do site aparecem os atalhos. No quinto
atalho tem uma maleta de médicos escrita ‘procure um médico’. Clique nessa
maleta. Vai aparecer ‘encontre um médico que realiza o tratamento precoce em
seu estado’”, disse na postagem.
No site, a associação diz que o movimento é composto por
cerca de 15 mil médicos. No entanto, são cerca de 300 profissionais, com
especializações variadas, que deixam seus contatos para quem tiver interesse em
realizar consulta presencial ou teleatendimento.
O CFM (Conselho Federal de Medicina) afirmou, em nota, que
não tem conhecimento do patrocínio da campanha nos jornais. Disse ainda que,
por ser instância judicante em grau de recurso, não comenta casos concretos.
“Denúncias de irregularidades podem ser apresentadas no
Conselho Regional de Medicina do estado onde ocorreu a situação. O CRM
procederá à apuração necessária, com os eventuais desdobramentos, como abertura
de sindicância e de processo ético-profissional, em caso de confirmação da
suspeita.”
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