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Foto: Fac-símile do Estadão de 21 e 22 de outubro de 1969
O interventor Leonino Caiado, então com 28 anos de idade, primo do atual governador Ronaldo Caiado, assumiu a prefeitura com a cassação de Iris
Mesmo cassado pela ditadura, Iris tentou brecha jurídica para inaugurar o Mutirama em 1969
29/06/2019, às 01:01 · Por Eduardo Horacio
Em 17 de outubro de 1969, com base no AI-5, prestes a
inaugurar o Parque Mutirama, o então prefeito de Goiânia, Iris Rezende, teve seu
mandato cassado pela ditadura militar e teve seus direitos políticos suspensos
por 10 anos. Essa é a história que todo o Brasil conhece. Uma história pouco
contada deste episódio é que Iris ainda assim tentou, já com o mandato cassado,
inaugurar o Mutirama.
A história está documentada pelo jornal O Estado de S.Paulo
(veja fac-símiles acima, na ilustração desta matéria), jornal apoiador do golpe
militar de 1964, que deu em sua primeira página no dia 21 de outubro de 1969
que Iris Rezende ainda despachava na prefeitura, já que a ditadura ainda não havia
indicado um substituto para Iris.
O prefeito, já cassado, gozava de imensa popularidade (tanto
que era o favorito absoluto para a eleição de governador de 1970 – eleição que
nunca se realizou) e usou de uma artimanha jurídica, aproveitando-se que a ditadura
militar tentava manter a imagem de legalista. Como sua cassação ainda não havia
sido publicada no Diário Oficial da União, Iris era legalmente o prefeito. Ou,
no mínimo, ele usou a seu favor um limbo jurídico. Tanto que nos dias 20 e 21
de outubro, Iris comandou pessoalmente as obras da Praça Santos Dumont e do Parque
Mutirama, já praticamente prontos para a inauguração. O jornal destaca uma movimentação
de generais do Exército em Goiânia e um governador Otávio Lage, apoiador da ditadura,
confuso sobre como proceder.
No dia seguinte, o mesmo Estadão documenta em sua primeira página: “Goiânia já tem prefeito”. A cassação de Iris havia sido publicada no Diário Oficial. A foto escolhida para a primeira página do jornal era simbólica: o mutirama. E a legenda: "O mutirama, obra de Iris Rezende". Quem assumia, imposto pela ditadura? O interventor Leonino Caiado, então com 28 anos de idade, primo do atual governador Ronaldo Caiado (DEM). Iris, já cassado, começaria ali a praticar a carreira de advocacia. Frustrado, não pôde inaugurar nem a Praça Santos Dumont e nem o Parque Mutirama, duas de suas obras como prefeito. E nem poderia se candidatar a governador em 1970.
Leonino ficaria no cargo de prefeito por nove meses, de 22
de outubro de 1969 a 30 de junho de 1970, sendo sucedido por Manuel dos Reis e
Silva, também nomeado pela ditadura militar. Leonino depois ainda seria
governador de Goiás, também como interventor, de 1971 a 75. Iris voltaria a ter
seus direitos políticos com a anistia de 1979 e, três anos depois, seria eleito
governador de Goiás com a maior votação proporcional da história do Estado (61,8%), derrotando o candidato da Arena, Otávio Lage (o
mesmo que foi governador na época da cassação de Iris), que teve 30,1%. Os demais candidatos, juntos, não somaram 9% dos votos.
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