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Fotos: Reprodução do livro
Foto da capa do livro e foto de Ivan em entrevista com Henrique Santillo no dia da posse de governador, acompanhado de seu gravador "made in Manaus", como ele mesmo brinca no livro
Ivan Mendonça: a vocação, os bastidores e o texto preciso
01/07/2019, às 00:01 · Por Eduardo Horacio
Hoje, segunda-feira, 1º, às 19 horas, na Assembleia
Legislativa, será lançado o livro que melhor conta a história de Goiás dos
últimos 40 anos. Em uma autobiografia que mistura fatos pessoais e políticos de
Goiás, o jornalista Ivan Mendonça põe nas livrarias “O Espião do Morro:
Releitura das Mutações do Jornalismo e do Poder Político em Goiás” (Editora Kelps,
295 páginas). O título é um trocadilho ao Morro do Espia, em Tiros (MG), onde
nasceu, e também uma boa metáfora de alguém que está sempre em local
estratégico, bem posicionado, para ‘espiar’ o que acontecia na política, como
bom goiano-mineiro, ou mineiro-goiano.
Para quem gosta de bastidores da política, o livro é um banquete.
A começar da briga interna na ditadura militar para escolher o governador
sucessor de Irapuan Costa Júnior. O nome de José de Assis acabou sendo
derrubado depois que o jornalista Jackson Abrão deu um furo na TV Anhanguera e o
“incendiário” Brasílio Caiado reagiu em Brasília, numa articulação que culminou
na escolha de Ary Valadão, cabendo a Golbery do Couto e Silva a palavra final
sobre quem seria o governador goiano.
Em 1980, Ivan relata ali detalhes do nascimento do Diário da
Manhã e uma redação repleta de jornalistas de primeira. Entre outros furos, o
de que Iris Rezende havia convidado e Irapuan havia aceitado se filiar ao MDB,
dois anos antes da histórica eleição de governador de 1982. Ivan também nota
ali o erro político do então senador Henrique Santillo de deixar o MDB para se
filiar ao PT. Quando retorna ao MDB, em abril de 1981, a candidatura de Iris
Rezende a governador já estava mais que consolidada dentro do partido.
Em 1982, Ivan mostra como a eleição de Iris governador era considerada uma “barbada” por todos, mesmo em um período em que pesquisas eleitorais não dominavam o noticiário. Ao fim, como previsto, Iris se elegeu com dois terços dos votos, em uma votação até hoje não repetida. O livro narra também bastidores de dois comícios das Diretas-Já em 1983 em Goiânia.
Na Folha
Em 1986 e 1987, Ivan assinou uma coluna de opinião na página
2 da Folha de S.Paulo, até hoje a página mais lida do veículo, sempre com
notícias de Goiás. A coluna chamava “Brasil Central”. Em 9 de junho de 1987, sua
coluna na Folha termina com uma frase que diz muito sobre obras inacabadas: “Goiás
está almoçando, jantando e sonhando com a ferrovia Norte-Sul. Pode ser que a
obra decrete a falência pública do governo José Sarney, mas certamente o Estado
será o último a saber”. Passados 32 anos, governadores e presidente da
república ainda falam na mesma ferrovia.
O livro também narra detalhes de bastidores das eleições de
Iris Rezende e Maguito Vilela em 1990 e 1994, respectivamente, incluindo o motivo
do rompimento entre Lúcia Vânia e Ronaldo Caiado em 1994, que inviabilizou um
apoio de Caiado a Lúcia no segundo turno – os dois acabaram perdendo a eleição
para Maguito.
Outra parte interessante são os bastidores do nascimento da candidatura de oposição a Iris Rezende em 1998. A escolha inicial por Roberto Balestra mostrou-se errada, tanto que o candidato foi abandonado à própria sorte. Guiado por pesquisas, o então deputado federal Marconi Perillo já sonhava com a candidatura, mesmo com o então presidente Fernando Henrique Cardoso manifestando interesse que o PSDB não lançasse candidato em Goiás e apoiasse Iris.
Ivan conta que no dia 29 de junho de 1998, antevéspera do prazo final para lançamento de candidaturas, foi jantar no apartamento de Marconi na rua 3, no Setor Oeste. Naquele dia, quase todos presentes ao jantar tinham a mesma opinião. Segundo o livro, havia “uma panela de pressão, ligada a todo vapor” para que Marconi desistisse da “aventura” de ser candidato. Entre os que estavam contra a candidatura havia desde Valéria Perillo até o padre César Garcia. Dois dias depois, Marconi, contrariando familiares e aliados, anunciaria a candidatura a governador. Quatro meses depois, seria eleito.
Marconi x Caiado
O início do mandato de Marconi Perillo seria também o começo
do rompimento com Ronaldo Caiado, com o ápice se dando em 2003, inclusive com
um recado de Caiado para Marconi, via Tião Caroço: “diga ao governador que estou
pronto para enfrentá-lo do jeito que ele quiser”. Marconi usou a força da
máquina e comandou uma desfiliação em massa de prefeitos do então PFL (hoje
DEM) de Caiado rumo ao PSDB. Em 2006, Caiado lançaria a candidatura solo de
Demóstenes a governador e, em 2010, a contragosto, aceitaria que o DEM integrasse
a chapa de Marconi Perillo, para só romper formalmente em 2014, com o DEM se
aliando ao MDB de Iris Rezende.
Antes disso, em 2003, Ivan Mendonça relata um convite que
recebeu de Alcides Rodrigues (vice-governador que seria eleito governador três
anos depois): ser secretário de comunicação de Anápolis no período em que
Alcides fosse interventor. Alcides foi bastante insistente e Ivan teve que
recorrer a amigos para declinar do convite. Em 2018, usando metáforas médicas,
Ivan diz que um “mal súbito” acometeu o PSDB e o fim do chamado “Tempo Novo” viria
com uma cirurgia sem anestesia.
Concisão
Ivan inicia sua carreira no jornal Cinco de Março, primeiro como diagramador e,
depois, como repórter, no início assinando “Ivan Mendonça de Lima”. Só em 1978,
abandonaria o Lima em nome da concisão, por sugestão do seu editor no Jornal Opção,
José Luiz Bittencourt. Sua primeira reportagem sem o “Lima” foi um perfil do
então desconhecido Joaquim Roriz, de Luziânia, amigo de Henrique Santillo, que
depois viria a ser prefeito de Goiânia e quatro vezes governador do Distrito
Federal.
Concisão é uma marca do estilo Ivan Mendonça de jornalismo. O
colunismo de notas é diferente antes e depois dele. Ivan já brilhava nas notas
quando substituía Arthur Rezende no Magazine, mas foi de 1996 até 2003, como
titular da coluna Giro, que algo diferente aconteceu. Com Ivan, a coluna passou
a ter personalidade, sem palavras fora de lugar, com o bom-humor permeando as
notas como cadências harmônicas. Com Ivan, o Giro passou a ser a primeira
leitura de todos que folheavam O Popular, diariamente. Por ali, dada a concisão
e a boa apuração, havia informação diária de qualidade para, pelo menos, 10
matérias diferentes.
Vocação
Ivan fala no livro de vários fatos de sua infância, incluindo uma caxumba aos
cinco anos, até chegar à adolescência nos anos 70 e a dúvida entre os cursos de
agronomia e jornalismo. “Na dúvida, venceu vocação”, registra. Nessa época, como
monitor na UFG, Ivan compartilhou com os colegas sua experiência anterior de
fotógrafo. Entre outros, foi contemporâneo da então estudante de jornalismo
Olga Curado, hoje famosa consultora de marketing que mistura comunicação com
aikido.
O livro tem bons conselhos a jornalistas recém-formados.
Conselhos ainda úteis para veteranos que se perdem na vaidade. “Trem se espera
na estação, sem sangria desatada. O nome de alguém não pode ser osso para andar
na boca de cachorro”, escreve Ivan ao contar do convite que teve para ser
editor de fotografia – convite desfeito no mesmo dia.
Na última página, uma frase que todo político deveria gravar
em sua memória: “Igual tempo e poder, políticos também passam, mas o jornalismo
permanece”.
Serviço
Lançamento do livro “O Espião do Morro”, de Ivan Mendonça
Local: Salão Nobre da Assembleia Legislativa de Goiás
Dia: Hoje, 1º de julho de 2019
Horário: 19 horas
*Texto publicado originalmente no jornal O Hoje de 1º dejulho de 2019 (link)
Ivan Mendonça O Espião do Morro Autobiografia Bastidores